Minha primeira atuação como Arte-Educadora foi através do estágio na Escola Estadual Marília de Dirceu de setembro a dezembro de 2009. Já havia ministrado oficina de teatro, mas para os usuários do CAPS, não para crianças. O projeto para este colégio se chamava “Me vejo no que vejo” Redescobrindo Corpo/Espaço no Espaço Escolar, foi uma proposta com o foco nas Artes Cênicas, direcionado para alunos de segundo e terceiro anos do ensino Fundamental da Escola Estadual Marília de Dirceu. O projeto consistiu em trabalhar a expressividade do corpo/espaço[1] do aluno em relação ao espaço físico escolar, na pesquisa dos múltiplos significados que esta relação pôde suscitar. As aulas tiveram o objetivo de trabalhar as relações que cada turma e cada indivíduo estabeleciam com o espaço, na dinâmica escolar, a partir da aplicação de jogos teatrais na pesquisa de desenvolver o conhecimento corporal individual e coletivo e suas múltiplas relações com o espaço da sala de aula e da escola.
O estágio em Regência II no CAPS I é desenvolvido em oficinas de três horas semanais desde o dia seis de maio de 2010. O CAPS é uma instituição que presta serviços de atendimento psicossocial para pessoas com distúrbio mental, vinculado à Prefeitura Municipal de Ouro Preto. Este tipo de instituição surgiu a partir da “Luta Antimanicomial”, engendrada na década de 80 no Brasil, pela necessidade de tratamentos mais humanizados a esquizofrênicos, contra o enclausuramento em sanatórios, que servem de aprisionamento dos “doentes” em uma procura de cura ou de retirá-los do meio social.
O projeto consiste em trabalhar a expressividade do corpo, voz e os múltiplos sentidos dos indivíduos a fim de suscitar, aguçar e dar atenção à coletividade entre os agentes. Acredito que a comunicação humana se desenvolve por variadas vias, e que a normatividade social restringe a possibilidade de trabalhar lógicas e sentidos do corpo dos usuários. Desde pequeno, somos aculturados a fechar os sentidos, acostumados a ficar sentados, a falar em voz baixa e qualquer comportamento que foge do padrão cultural é visto como extrapolação, ‘loucura’. É claro que não afirmo aqui que a esquizofrenia é puro distúrbio comportamental. Isso seria rebaixar a dor dos usuários a padrões socialmente aceitos. O desígnio destas oficinas tem sido de experimentar com os usuários as múltiplas vias de expressão a fim de que se fortaleçam como um coletivo e expressem suas individualidades. Quanto mais lúdico é o encontro, mais eles se entregam nas atividades.
Simultaneamente ao CAPS I, ingressei no Projeto de Estímulo a Docência no início de 2010. O projeto tem como objetivo incentivar a pesquisa e o contato das licenciaturas nas universidades com as escolas públicas a fim de que se valorizem estes dois espaços através de um trabalho conjunto entre docentes, discentes e do corpo escolar incentivando a pesquisa teórico-prática nas licenciaturas. Nesta perspectiva o PED atua ativamente ao estimular o contato dos discentes com a escola pública de modo a pesquisar este espaço de troca e a produzir diferença ao se relacionar, pois há o aparato do projeto. Durante o primeiro semestre de 2010 não atuamos como professores em sala de aula devido à greve dos servidores da rede estadual em Minas Gerais, por isso nosso primeiro contato com a escola aconteceu apenas em agosto deste ano.
A Escola Estadual Desembargador Horacio Andrade, onde desenvolvo o projeto, atende às periferias de Ouro Preto; somos cinco alunos-bolsistas nesta escola que não possui espaço físico para que as aulas de teatro aconteçam. Visto este problema pensamos que não poderíamos esperar da escola um espaço e começamos o projeto de intervenção no espaço escolar durante os recreios da manhã. Foi bom porque deste modo atendemos a quase toda a escola. Intervimos durantes os recreios de segunda-feira com propostas que mudavam a percepção temporal como andar em câmara lenta com frases sobre tempo coladas no corpo, e notamos que o estranhamento destas intervenções não é maior do que a curiosidade e a espontaneidade dos alunos. Além das intervenções montamos um grupo de documentário para falar do espaço escolar com adolescentes. Acredito que esses dois espaços de atuação na escola têm gerado respostas nos corpos dos alunos que estão cada vez mais ativos e participativos.
Antes de passar por uma sala de aula a Arte-Educação não ocupava em minha prioridade de atenção uma postura de Aluna de Licenciatura, mas depois que vi a possibilidade de trabalhar educação de modo a relacioná-la com o espaço do aluno ou do usuário, e a produção de reflexo no trabalho corporal e coletivo; e a dificuldade e necessidade de realizar trabalhos que estimulem relações são tão intensas como a performance e a, cena teatral. Ter contato com um corpo educacional e mental tão veementemente instituído como local de formatação.
A partir das teorias educacionais construtivistas constatei que a inteligência humana não se reduz à capacidade de elaboração de raciocínios lógicos, mas da interação entre desenvolvimento cognitivo, afetivo e lógico, e estas informações foram desenhadas com a experiência, ganharam um corpo de possibilidade, reforçando-as.



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