Simultâneo ao final do processo do TCC passei em maio de 2008, no edital para participar do Projeto de Extensão Mambembe Música e Teatro Itinerante coordenado pela professora Neide das Graças Bortolini, do qual participei até o começo de 2010. O projeto apresenta-se uma vez ao mês nas comunidades periféricas de Ouro Preto. A cada ano de renovação, há a transcriação de alguma obra literária para a linguagem de teatro de rua, nas comunidades periféricas de Ouro Preto.
Composto por alunos-bolsistas do curso de Música e Artes Cênicas, na época tinha cinco anos de existência e, quase todo o agrupamento de dezessete pessoas, estava saindo por se formar. Então fiz parte de uma transição de fase, pois havia mais integrantes que não tinham experiência no grupo. O formato de funcionamento se dá na divisão de seis núcleos, oficina, registro, produção, criação literária, de atuação e de música. Cada integrante fazia parte da encenação ou criação musical e de mais um núcleo. No início a estrutura de aparatos cênicos e de funcionamento me assustou, porque no meu referencial de teatro de rua estava intricada a experiência com o grupo TEMPO, em que realizávamos as ações sem necessidade de aparatos.
Entramos no meio do processo de criação do espetáculo Ciganos, baseado na obra de mesmo nome do autor Bartolomeu Campos Queirós e, infelizmente não havia tempo de processamento de criação, portanto o trabalho ficou com pouca capacidade de comunicação.
Além dos Ciganos, entramos em um espetáculo que já estava pronto, O Barão nas Árvores, de Ítalo Calvino, que fizera muito sucesso com o grupo anterior e devíamos pegar a substituição das personagens, portanto havia um receio de comparação, advindo da experiência com os Ciganos. Tivemos duas semanas para a substituição, pois já havia apresentação marcada e ninguém queria substituir por uma apresentação dos Ciganos, porque o processo fora curto e, devido a relações do grupo não estava bem trabalhado. Víamos em O Barão nas Árvores a possibilidade de ter satisfação artística. Devido ao tempo de substituição, no entanto, o espetáculo não foi processado em ensaio, mas na rua mesmo.
O cotidiano do grupo é de um a dois ensaios semanais e um ensaio no sábado, de oito da manhã, às dezoito da tarde. Em setembro de 2008 tínhamos que começar a preparar a próxima montagem e para isso fomos para uma imersão de processo no Solar da Mímica em São Paulo, com a oficina Mímica Ativa de Alberto Gaus. Este é o momento de mudança na vida de nosso agrupamento. Devido ao atropelo dos processos anteriores, aprendemos com as reações que a rua nos dava de reflexo, entretanto nossa relação de grupo ainda era cheia de rusgas, parecia-me que estávamos juntos pelo grupo, mas pouco com/pelos parceiros. Após esta imersão, de uma semana onde trabalhamos uma técnica que envolvia o relacionamento dos atores na criação, pois a ênfase estava em não colocar aparatos de representação e sim o exercício de estar aberto ao que o momento e a interação com o outro propõe, pautado por uma idéia de que o corpo reage a essas interações, e que o pensamento, a reflexão no momento de cena, o objetivo de significar algo, fecha as possibilidades de relação, então a potência criativa do momento. Nesta oficina entendemos em grupo que a relação interpessoal criada em processo coletivo vai para a cena, ainda que camuflada por aparatos técnicos. Desconstruímos uma série de pensamentos a partir de então, como o problema regularmente enfrentado pelos atores de trocar referenciais de perspectivas na relação com o trabalho uns dos outros. A partir de então os relacionamentos entre nós, passaram a ter ênfase, não em um campo terapêutico, mas ocupado com o corpo coletivo do grupo.
O Novo processo foi construído a partir da MPB e de Willian Shakespeare. Neste lugar, levamos a criação da cena, como a criação coletiva porque tínhamos o objetivo de pesquisar em profundo a relação da música e da cena na tentativa de viver a mesma intensidade. A voz de canto para a rua fora trabalhada com a mesma dedicação que a criação dos personagens, pois uma área se alimenta da outra (até então, fazíamos técnica vocal, mas parecia que a música, por ser um grupo de menos pessoas, servia à cena). A proposta foi de que todos são criadores ali, um processo colaborativo de um grupo de quatorze pessoas. Quando fomos pra casa, nas férias entre o processo, já tínhamos “achado” os personagens, que se deram na relação e experimentação de personagens das tragédias de Shakespeare, e de estímulos de criação de personagens com a técnica da Mímica Ativa, sob direção da integrante e amiga Iza Lanza. Líamos as tragédias de Shakespeare e cada ator trabalhava as relações entre grupo em cima de uma personagem específica. Minha personagem se deu em uma relação com o processo de querer ser uma rainha, entretanto dentro dos acontecimentos do ensaio, este desejo era relacionado mais como uma loucura. Lembrei-me da Rainha Margareth de Ricardo III, que fazia escárnio a todos e prenunciava os acontecimentos, pois perdera seu reino, ainda que vivesse dentro dele. A relação periférica que desenvolvi com os parceiros em processo me situou fora do reino. Um dia Iza veio com a história da Sinhá Olímpia, figura de Ouro Preto que contava histórias do tempo de Tiradentes e do reinado como se tivesse participado. Moça de família rica que dizem, por paixão enlouqueceu, fazia chapéus e roupas de lixo e tinha uma bengala. Foi a imagem perfeita para minha pesquisa. Minha personagem virou a Sinhá Margareth, rainha do lixo com o seu parceiro Eduardo (uma bengala com rosto).
O processo de criação das personagens, feito através da relação entre atores, objetos, exaustão física foi similar ao processo do Jogo dos Quatro Atores, até porque a diretora fora uma das atrizes/performers, entretanto com outra energia, pela proposta e pelas respostas de cada um. A partir dessas relações o dramaturgo Juliano Mendes, criou o texto Delírios de Will—Shakespeareações Musicais à Brasileira. A maior dificuldade do grupo foi de montar uma estrutura cênica para dar conta da multiplicidade em que o texto de quase cem páginas fora criado. Em maio de 2009, o espetáculo estreou com muita tensão, um parto. E a partir daí, o corpo de uma hora e quarenta minutos da estreia tomou o corpo de uma hora. Cada apresentação mais uma criação.
É interessante observar, como no teatro de rua, o espetáculo cria o corpo do espaço. O reino de Lixo era uma parte que deslocava o público para outro espaço, portanto para cada apresentação, um estudo prévio do local era necessário. Sempre o foi, como a participação ativa do público no espetáculo através desta cena sempre me pareceu importante, mas antes dos Delírios não era praticado. É interessante ressaltar que a característica por gosto de modos de trabalho de cada ator também foi pra rua e enriqueceu muito o espetáculo. Nesta cena de deslocamento, eu criava um reino imaginário com o público, e após a criação questionava a plateia sobre o que me faltava até chegar à resposta rei, e então mandava um séquito de guardas com armaduras de caixa de ovo e arminhas de água buscar meu rei, até que o rei da peça, cagão e cego, encontrava meu reino. Entretanto o que acontecia no entre deste roteiro e acontecia na relação com o público. Um novo elemento que incorporamos a partir das respostas da rua nos espetáculos anteriores, foi o distanciamento que fazíamos ao trocarmos de roupa para os coros que aconteciam na trajetória do espetáculo.
O deslocamento e o isolamento na apresentação, são reflexos de minha relações na criação, ou a grande dificuldade que tinha com meus colegas, em que parecia que todas as minhas propostas eram rejeitadas ou não eram “fortes”. Me descobri impositora nas relações e pulsando um modo teatral, que muito tinha que ver com a Performance, na necessidade de criações sempre atualizadas no tempo. Sou muito grata a esta tomada de parte com o grupo porque vejo que tivemos liberdade, cada ator, de colocar o seu modo de atuação para a criação dos personagens. Na estreia tivemos uma hora e quarenta de apresentação, pense isso para a rua. Excedeu muito a expectativa do público, mas o espetáculo era forte porque a construção dos personagens nos de força dentro da estrutura, que fora fechada em cenas que funcionavam como blocos quase autônomos do todo, e por isso sustentavam a presença do público. Vimos a necessidade de diminuição do tempo para a fruição da “história”, que era uma necessidade vista pela coordenadora e criadora do grupo, Neide das Graças, e por conseguinte, de grande parte do grupo. Conseguimos diminuir para uma hora e vinte minutos. Fizemos nove espetáculos comigo, mas depois de uma apresentação no bairro Pocinho, em que a partir de uma brincadeira que propus com as crianças de pega o rei, em meu deslocamento, elas entraram na cena de vez, reagindo conosco, desrespeitando a “ordem” das ações, felizes quando ao final todos os personagens morrem, apoiando o Psiu, que tomara a coroa do rei, batendo em mim e no rei Cagão, por representarmos personagens “fracos” no sentido capitalista, pois íamos contra o estado e o poder. O grupo não aguentou estas intervenções, não soubemos, deslocar da estrutura para uma situação emergente, mesmo com a segurança da criação de improvisação que nos gerou o espetáculo. Concordei, apesar de me rasgar por dentro, que as apresentações na comunidade seriam sem o deslocamento do Reino de Lixo e a cena das bruxas. Apenas apresentaríamos inteiro para público que já tivesse algum contato e aguentassem o tamanho da estrutura. Minha última apresentação junto ao espetáculo foi aqui em Salvador, para o ENEARTE em setembro de 2009. Foi muito importante e marcante para mim, que estava atravessada por uma cidade que me provocava os sentimentos mais paradoxais que já tivera.
Entendo que o corte de minha cena, faz parte, primeiro de minha dificuldade inicial de me relacionar em criação, e depois pelos aspectos de descontrole que suscitavam em cena, e deixavam todo o grupo na expectativa do que poderia acontecer. Sou extremamente grata a este processo e a todos, pois me ajudou muito a ter clareza dos elementos que me provocam para a relação de cena e da importância das relações na criação de qualquer momento de vida. Vi que gosto de trabalhar com tempos que trabalhem a partir de expectativas de público e com interação, e intervenham na apreensão linear. Passei pelo inferno de ter de abrir mão da parte pelo todo, mesmo que não concorde com razão, mas vi que a razão está no sentido dos que propõe a ação.
A apresentação em Salvador, na UFBA do campus Ondina aconteceu no dia 26 de setembro 2009. Desde então o espetáculo já tinha um corpo de cinco meses, em que havíamos passado as mais diferentes recepções, e estávamos seguros quanto à qualidade do trabalho, que cada vez ganhava mais nuances. Cada local e público propõe uma apresentação, mas interessante a anotação de reação de público que tivemos em Salvador. No começo do espetáculo estávamos com a energia muito alta (até porque teve um cortejo maravilhoso levado pelo projeto de extensão Pau e Lata), no entanto, logo pegamos um ritmo ralentado. Não sei se é pelo calor e pelo fato de as roupas terem sido projetadas pro frio. É interessante ressaltar que não conseguíamos ler a reação da platéia durante o espetáculo. Apresentávamos em Ouro Preto para os mais diversos públicos, pra pessoas que nunca tinha tido contato com teatro, como na comunidade do Pocinho onde as crianças invadiram a cena, e quando os personagens morriam (porque todos morrem), davam risada, gritavam mais um, iam ver se estávamos mortos, batiam no rei cagão e em mim (pela aproximação de que representávamos, a pobreza o bobão), e mesmo neste espetáculo, conseguíamos ler a reação a plateia por mais ou menos que conseguíssemos dialogar com as reações. Em Salvador, as risadas vinham em locais que jamais pensamos. Quando acabou o espetáculo, que para o grupo e para o público de Ouro Preto tinha sido fraco, sem corpo, vimos que as pessoas adoraram. Não dá pra se prever reação de público e fora do local de campo cultural, ainda menos.
Ao final de 2009 sai do grupo como aluna-bolsista, mas ainda realizei algumas atividades de acompanhamento do espetáculo e como oficineira, porque no Mambembe não há como sair no particípio. Saí pela necessidade que tinha de pesquisar a performance, porque não tinha tempo para me dedicar ao grupo e a outra pesquisa. O Mambembe tem como parte de seu projeto o núcleo de oficinas, do qual eu fazia parte, que deve desenvolver todo ano ao menos uma de cada oficina que o grupo tem em sua proposta. As oficinas desenvolvidas são de produção de texto, de jogos teatrais, de musicalização e de expressão corporal. A exemplo de minha participação como voluntária estão as oficinas ministradas na cidade de Cachoeira do Campo, em Mariana, para graduandos do curso de Pedagogia e em Belém do Pará no IDEA, congresso, o qual tratarei mais adiante nesta teia de memória.
Entretanto foi em Serra Negra que aconteceu a relação mais profunda que o núcleo de oficinas estabeleceu com o lugar na minha caminhada com o grupo, Porque não apenas as oficinas foram ministradas, como também houve acompanhamento da comunidade no processo criativo da cena. Fomos para Serra Negra a fim de ministrar as oficinas e de ensaiar para o espetáculo Delírios de Will em abril de 2009, e voltamos para apresentar o espetáculo em agosto daquele ano. Em Serra Negra O Projeto Luz que Anda foi desenvolvido com o intuito de trabalhar a Arte/Educação com professores, pedagogos e alunos no município de Serra Negra, abrangendo também professores das cidades vizinhas como Divinópolis. Este projeto propõe intercâmbio com a Universidade de Hostock, na Alemanha e conta com a participação direta de integrantes da comunidade acadêmica em intercâmbio com Serra Negra.
Em junho de 2010 tivemos a felicidade de festejar a publicação do primeiro livro do grupo, que continha seu histórico até as apresentações de Ciganos e O Barão nas Árvores. Em fevereiro de 2011 foi a vez do segundo livro do grupo com o histórico dos espetáculos Delírios de Will e O Cavaleiro Inexistente.














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