As performances acima citadas marcam uma trajetória de mudança de perspectiva por linha e necessidade individual com esta linguagem. Desde que cheguei a Ouro Preto, performar me interessava porque em meu grupo anterior, possuíamos a ideologia de que esta linguagem era a mais apropriada para a necessidade de provocar o espaço. Entretanto, foi durante o processo de TCC O Jogo dos Quatro Atores e seus Respectivos Baldes ou Fragmentos de uma Quase História, que fui ter contato direto com uma prática que pesquisava um local movediço e de identidade não no modo de criar uma personagem, mas do que significava ser atriz. Não éramos personagens, mas como atores, reagíamos aos mais variados fluxos que ocorriam no espaço. Desta experiência, estabeleci uma grande parceria com Paulo Maffei, que tinha as mesmas questões e vontade de pesquisar a Performance. De um processo mais pessoal, fui para a pesquisa em grupo através da cadeira de Criação Teatral com a professora Tânia Alice e Gilson Mota, que na prática resultou na pesquisa de performances e intervenções no espaço público. Participei de duas performances criadas por Maffei, A Bolha e Jorge Pessoa, Eu não sou de plástico. Paulo é asfixionado por materiais de plástico e de uma aula de caracterização, onde ele havia criado figurinos de plástico de lixo, veio a vontade de criar um corpo coletivo de plástico, uma bolha. Na bolha tínhamos umas dez pessoas, e caminhávamos por Ouro Preto, vivendo dentro daquele espaço, que ao final estava todo pintado por dentro. Desenvolvíamos ações cotidianas, como a preparação da massa de um bolo, cuidar das bonecas que lá estavam e pintar as paredes da Bolha. Criamos um corpo pulsante de acontecimentos não públicos, dentro de um espaço ambulante e não totalmente fechado. Ao Final da performance, abrimos o conteúdo da Bolha na Praça Tiradentes e fomos enterrá-la na Igreja do Carmo.
Já o Jorge tem mania de reciclar e criar uma gama de objetos a partir do que encontra na rua e com esta demanda, projetamos uma performance que consistia em ir para a praça Tiradentes com a roupa mais chique que possuíamos e recolher a maior quantidade de lixo o possível em trinta minutos. Assim que acabamos de recolher afixamos um enorme painel no monumento e começamos a fazer uma obra de arte a partir do material recolhido. Alugamos um carro de som que tocava Mozart e Bach, enquanto desenvolvíamos a criação. Quando terminamos, deixamos a obra no monumento e o Tonico Zelador, um senhor que acreditava ter sido enviado para zelar da Praça Tiradentes, retirou logo aquela obra de lixo que havíamos construído uma sujeira e jogou em seu local, no lixo.
Em maio 2009 na Semana de Arte de Ouro Preto, Nadja Dulci, Maffei e eu fomos à palestra das autoras Líliam Amaral e Beatriz Medeiros. Saímos da mesa com um tanto de dúvidas sanadas, mas com milhares de outras questões. Apresentamos três dias depois A Imagem e se Duplo. O contato que possuíamos com a performance até então muito se influenciava nas leituras de Artaud, e com a visita das performers, atentamos para o poder conceitual desta linguagem em relação ao tempo e o espaço. Resolvemos então intervir no espaço que mais questões provocava na gente, o Instituto de Filosofia, onde os três fazíamos cadeiras naquele semestre. A performance consitiu em intervir no espaço de modo a levar nossas questões pessoais através de objetos que as identificasse, e no uso de duas câmeras, uma de registro e uma de projeção em telão no momento de ação. Junto com o olhar da câmera veio Henrique Manara como interventor registrador e performer. A idéia era criar um espaço onde as imagens se duplicariam através dos múltiplos estímulos que os objetos, de nossas interações, do olhar do público e do olhar da câmera pela perspectiva dos performers para lidar com a extrapolação de signos e com a extrapolação de imagens. Experimentar a sensação de múltiplos focos de imagem e colocar o público como participante, ainda que seja através de sua imagem projetada. Reações em cadeia das múltiplas perspectivas do público e dos performers na observação e interação com um mesmo objeto, uma mesma matéria. A performance não foi roteirizada nem teve limite de tempo, enquanto houvesse acontecimentos no espaço e corpo para acontecer, estaríamos ali. A duração foi de quase duas horas com pouca rotatividade de público. No final, muitas pessoas haviam entrado no espaço, mexido na câmera, experimentado o seu reflexo projetado, distribuído beijos, dançado.
Ainda em 2009 realizamos a IntervençãoCênica como um ato performático de protesto estético-musical dos alunos do curso de Artes Cênicas da UFOP, em relação às más condições estruturais do curso e o descaso da Universidade para com nossa área de atuação, que é sempre colocada em último lugar na ordem das necessidades acadêmicas.
Em abril de 2010 fiz parte da oficina ARTE HOJE 2010 Pixel ação_ Intervenção sonoro visual no espaço público, pela Fundação de Arte de Ouro Preto. A oficina aconteceu para realização de vídeo-instalação em um muro em baixo do restaurante O Passo, que era a fachada de uma casa com uma escada que não dava em lugar algum. Os grupos foram divididos em núcleos de roteiro, de linguagem, de performance e edição. Fiz parte do núcleo de performance e durante três dias de oficinas transformamos aquele espaço, que é como um anexo da rua, pois fica abaixo do nível da rua, dá para ver o espaço por cima da ponte, na casa do nosso corpo. Intervimos no espaço durante três dias, ocupando-o com ações corporais e ações integradas com as idéias de captação de imagem dos outros grupos, que encontrávamos ao final do dia. Nos dias 20 e 21 deste mês fizemos a intervenção sonora e visual editada sobre a fachada.
As imagens e seu duplo foi uma instalação performática com os registros fílmico e fotográfico da A Imagem e seu Duplo, depois de um ano no mesmo espaço e na mesma mostra de intervenção, a III Miscelânia da VI Semana da UFOP. Desta vez o tempo era de revisitação do trabalho pelos performers e boa parte do público que se via a um ano atrás. A sensação temporal aqui teve uma confusão entre passado e presente, porque criamos Site Specific para cada imagem através das relações temporais do agora e da lembrança. O público neste espaço foi muito mais participativo penso porque não estávamos como performers, estávamos no papel de quem realiza uma exposição do trabalho e o fato de ter de circular pelo espaço que no ano anterior era demarcado pelos objetos agora expostos, facilitou a interação de muitas pessoas que esperavam de nós uma ação espacial, um estímulo. No final, nós é que havíamos sido levados pelas ações do público.
No segundo semestre de 2010 criamos o grupo de pesquisa em performance, a fim de discutirmos e experimentarmos um Work in Progres e intervirmos em Ouro Preto. É interessante notar como toda a trajetória de experimentações teórica-prática, resultam em mim contemporaneamente, uma necessidade forte de lidar mais com a performance que pensa o espaço para intervi-lo. Dentro do grupo realizamos a Lava-Ação do Monumento Tiradentes a partir da observação grosseira acerca da sujeira que o monumento se encontrava após a morte do Tonico Zelador, então pensamos em homenageá-lo lavando o monumento. Resolvemos realizá-la durante o ENEARTE, num paralelo que reuniu além dos cinco integrantes do grupo, mais umas vinte pessoas. No sábado final do ENEARTE, dia 24, combinamos de encontrar na praça com trajes de banho, baldes e materiais de limpeza. Chamamos para a intervenção o Núcleo de Contato-improvisação e o projeto de extensão Pau e Lata da UFRN e criamos na praça um dia de diversão, parecia um clube ou uma praia em que os integrantes se divertiam em lavar o monumento. As reações dos moradores, ainda que tivéssemos levado linguagens que provocam um estranhamento como o contato improvisação para o meio da rua, foi de acolhimento da ação, porque deslocamos o sentido de forasteiros como aqueles que invadem e sustentam a economia da cidade, mas antes, fomos pessoas “de fora” que homenagearam um ouro-pretano que divertia todos os turistas na praça, contando casos, cantando músicas, o Tonico Zelador.
O caráter lúdico, ainda que de questionamento do lugar abriu frestas no tempo real de dinâmica do espaço, deslocando a praça, quase que como um lugar de lazer. Nos dias seguintes ouvíamos comentários carinhosos dos moradores e a partir de então o monumento não está mais sujo.
Ultimamente pesquiso mais as reações em intervenções que tenham potência não apenas de comunicação como de jogo entre/com o ambiente. E é neste lugar de não representação, mas vivência, que a intervenção reúne as características de trabalho realizadas até então em uma culminância de abertura de referencial no espaço e reflexo na minha construção/desconstrução com/ entre a Arte. Este memorial mesmo é um resultado do pensamento que tenho sobre meus trabalhos agora. Todos estes trabalhos foram importantes para a construção de conhecimento e de identidades que possuo hoje. Gostaria de pesquisar a vida de modo a perceber, e estar dentro do presente a todo o momento. Como isso parece impossível satisfaço na criação artística, pequenos momentos de qualidade de atenção, afetação e percepção que pretendo aumentar no uso de todas as mídias para me comunicar, corpo, escrita, apropriação de linguagem acadêmica, voz, gestos, e principalmente nos entre lugares de relação.
Meu objeto de estudo no Projeto de Mestrado Espera: Acontecimento-Esvaziamento quando a-com/tece, para linha de pesquisa Corpo E(m) Performance em Artes Cênicas da UFBA, sob orientação de Ciane Fernandes, carrega em sua nomenclatura quatro palavras-chave para o entendimento de seu conteúdo. No título faço uma afirmação acerca do que entendo como espera. As palavras Acontecimento-esvaziamento estão unidas em relação de paralelismo, pois analiso que a espera em locais previstos a seu acontecimento, causa sensação de tempo vazio no sentido de perda para os sujeitos. Entretanto esta afirmação só procede na condicional de tempo quando não se tece em conjunto o tempo de espera, ou seja, quando a(sentido de negação)-com(em conjunto)/tece(no sentido da forma de ação a que estou me referindo no corpo do projeto). Entretanto a quinta palavra-chave intervenção escapa ao título, mas é chave por ser modo de pesquisa específico para locais de espera, em maioria, públicos.















































